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sábado, 15 de fevereiro de 2020

A menina que queria voar - (DV-88)

A menina Gisele vinha mergulhada em um monte de sonhos, mergulhada é força de expressão porque ela queria mesmo era voar. Aos 12 anos parava e pensava muito quando alguém perguntava - o que você vai ser quando crescer. Nas suas reflexões ela incluía algo que envolvia viajar… buscar outras plagas, conhecimentos, ainda que fosse muito nova.
E eis que um dia alguém aponta para uma carranca, jorrando água, e diz - se você beber dessa água nunca mais sai de Franca… Hein, como assim, que força tem essa água meu Deus. Pior que em seguida vem o decreto - e tem mais, se sair vai acabar voltando!
Parou para ler o que tinha na placa: "Esta é a água da careta, tão bela como nunca vi, quem beber desta fonte, nunca mais sairá daqui”. Vixe, é verdade, pensou.
Estava decidido, ela nunca ia beber daquela fonte, no imaginário infantil veio o temor de que, se bebesse todos os sonhos estavam interrompidos, estudar fora, ter a chance de morar em uma Capital, ainda que fossem sonhos acabou, bebeu, ficou!
Os mais antigos já sabem, eu falo da Água da Careta, um verdadeiro monumento que Franca teve na ponte da rua Voluntários da Franca, guardando as enormes proporções, tão querido como o Relógio do Sol, os versos são de José Ferreira de Linhares, premiado em um concurso realizado em 1956.
O que falar do pensamento da menina? Vamos fazer o inverso, publicamos fotos e referências históricas da Água da Careta. Sabe o que aconteceu? Dezenas de pessoas, com muita convicção, deram seus depoimentos contando que ficou em Franca porque bebeu dessa água, que foi embora mas voltou, outros não conseguiram voltar, mas não a esquecem e se sentem tristes da profecia não ter dado certo.
Se os adultos vivem essas ilusões, e bota romantismo nisso, porque não dar o direito a uma criança de pensar ao contrário? Que água pode ter o poder de me prender para sempre? Hoje ela se acha boba por ter pensado assim - “Eu não bebi dessa água e me arrependo!”, não concordo, sua história é muito mais impactante.

Esse depoimento é verídico, de Gisele Carvalho, está no meu Facebook e ela autorizou que eu contasse aqui. Incrível, muito incrível.






Referência: 88.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 15/02/2020 - (DV-88)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Franca bicentenária (DV-79)

Abril de 1956 - Franca está agitadíssima e em festas, enfim no próximo dia 24 será comemorado o centenário da cidade, pipocam nos jornais as poesias, muito comuns àquela época, tudo virava prosa e verso. Todas enalteciam os bandeirantes, os cafezais, as três colinas, o capim mimoso e o Imperador, que foi só uma homenagem, ele nunca esteve nas nossas paragens.
Nesse período houve também um concurso poético para escolher qual verso seria gravado na Água da Careta. O velho jatobazeiro infelizmente tinha caído, a praça Barão estava triste, ele ficou ali mais de 50 anos, desde o início do século.
Um versinho de meu pai, Leonel Nalini saúda a Rainha do Centenário, Ana Maria Minervino - dizia que as flores nos jardins iam abrindo enquanto ela passava. A miss Franca era Raquel Ribeiro.
Ah, não poderia faltar o selo comemorativo com a matriz e o Relógio do Sol, você tem um? No hino do centenário Jaime Bruna exalta o lado “paulista" do francano que não aceitou ser incorporado pelo sul de Minas, Sou Leal ao Meu Povo Paulista, brada, está em latim no brazão da cidade.
O governo paulista ajuda com 250 mil cruzeiros as comemorações e um belo desfile com todas as escolas é realizado. 
A Santa Casa de Misericórdia, com benção religiosa e tudo mais, inaugura o seu primeiro aparelho de raio x. A Casa Hygino - o ML da época, já tinha comemorado 100 anos também e se considerava um loja moderna, e era.
Só que não!
Mais recentemente verificou-se que, na verdade, a autonomia do povoado foi conquistada em 28 de novembro de 1824, quando ganhou o status de Vila Franca do Imperador, então - em tese - o centenário devia ter sido comemorado em 1924 e não em 1956.
No próprio site da Prefeitura, nas páginas dedicadas à  história, é registrado sobre a elevação à cidade em 1856: "mas esse não passa de um título honorífico, pois é com a criação da vila (1824) que o arraial adquiriu autonomia”. Daí justifica-se a mudança  feita na data de aniversário da cidade.
É um bela e inocente confusão histórica.

Daqui há 5 anos comemoraremos o bicentenário, quem participou das comemorações em 1956 poderá dar um salto de 100 anos em muito menos tempo.


Referência: 79.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 14/12/2019 - (DV-79)

sábado, 15 de setembro de 2018

Eclipse Solar: O Relógio do Sol (DV-05)




    Um domingo desses estava na casa de um amigo e notei que, no quadro mais bonito de sua sala - assinado por Pedro Schiratto - estava imponente o Relógio do Sol
     Deu uma certa angústia, confesso que fiquei muito chocado com a sua (quase) destruição, e ainda estamos bem assustados, só depois que ele voltar para seu local é que a tensão vai passar.
     A versão francesa nada tem a ver com a francana, as únicas coisas que os unem são o fato de reproduzirem a hora pelo efeito da sombra do sol e estarem na ponta de um pedestal (foto 1).
     No mundo os monumentos são protegidos até por vidro blindado, seria possível colocar uma proteção superior? Mas como um relógio desses vai viver sem sol? Ou seja, depois de reinstalado a preocupação continua.
     Tem 131 anos, foi inaugurado em 11 de abril de 1887, foi construído pelo padre francês Germano, que é de Annecy, e viu a cidade crescer em sua volta.
Acompanhou com orgulho a construção da majestosa Catedral (2), era uma igrejinha, quando ele também era menino, mas só foi reconhecida depois que ele já era adulto (3).
     Acompanhou as fofocas da praça Barão, conheceu o incrível Pelotão, nunca entendedo o humor negro que o cercava. Só soube mais tarde que os milhões negociados, em forma de diamantes, financiaram muito do progresso francano.
     Viu a movimentação da construção do vizinho Hotel Francano(5), e a euforia do café, que, ao se esvair, levou também este outro monumento.
     E a Água da Careta? Não era só deixa-la exposta, mesmo que sem água? (6)Informaram que a questão era de segurança, toda vez que a reinauguravam era roubada, como todo bom bronze.
     Riu muito com a juventude francana, dos anos 1960, girar em filas na sua frente, os moços indo, as moças vindo, paquera em círculo sem precedentes.
     Viu quase todas manifestações, as últimas ele perdeu, mas espantado mesmo ele ficou com o tamanho do primeiro arranha-céu o Edifício Franca do Imperador e com um moço que vendia amendoim, torradim, salgadim… que conseguia fazer a sua réplica (4).
     Enfim, o mundo todo vai para a Bélgica, para ver uma pequena estátua de um menino fazendo xixi, que mede 61 cm, que não tem origem certa e ainda tem nome de mané: Manneken Pis (7).

     Se preservam algo assim, que provoca milhões de visitas, alguém tem dúvida da necessidade de se preservar um monumento como o Relógio do Sol?

Referência: 5.a coluna publicada no Diário Verdade, jornal de Franca - SP - em 5/6/2018 - (DV-05)



(1) Exemplar em Annecy, na França

(2) Assistindo a construção da Matriz

(3) Assistindo a construção da futura Catedral





Saudoso primo Zé Piola
(4) Jubileu fazia réplicas e dava aulas sobre ele
Flagrante que fiz, 16h30 e nos dois relógios
Todo Natal espero para refazer essa foto

(5) Hotel Francano mencionado
(6) Água da Careta mencionada

(7) Manneken Pis, recebe milhões de turistas, dá para comparar?