segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Jesus e a tolerância (DV-69)

Ao analisarmos a obra de Jesus, deixada por sua vida, renúncias, exemplos, falas e porque não, milagres, veremos que no fundo nos mostra que a existência é um grande exercício de convivência. Ao dizer sim para o amor, a caridade e propriamente à vida, ele diz não para a violência, segregação, exploração e, principalmente, para a intolerância.
O status religioso predominante à época estava muito ressabiado com esse novo discurso, muitas vezes confrontaram Jesus para testar a sua interpretação. Mas sua posição ficou bem clara no Sermão do Monte onde ele afirma que não tinha vindo para destruir a Lei (mosaica) e sim para cumpri-la. O que fez, na verdade, foi dar uma interpretação revestida de amor em um novo tempo.
Um dos testes foi com a pena de morte, que era sumária para uma mulher adúltera, questionado por escribas e fariseus como cumpri-la com uma delas pega nesse flagrante, ele concorda com o apedrejamento, mas diz que as pedras deveriam ser arremessadas por quem nunca tinha pecado, ela sobrevive, mas é aconselhada a nunca mais pecar.
Já havia sido questionado de quem era o próximo para ele, nasce aí a parábola do Bom Samaritano. Jesus menciona a indiferença de alguns religiosos com um transeunte que havia sido  espancado em um assalto, mas que é socorrido por um samaritano, e inverte a pergunta, quem é foi o próximo nesse caso?
Sem tirar a relevância da misericórdia contida no socorro a uma vítima da violência, nessa parábola há um certo tom político, os samaritanos, por não aceitarem as imposições religiosas de cima para baixo, foram isolados e, muitas vezes, tiveram suas terras invadidas.
Jesus visita a Samaria e novamente dá destaque não só aos samaritanos, como também a uma aflita mulher. Ao pedir água para ela do poço onde tirava, ela estranha, um homem, judeu, pedindo água para uma mulher, ainda mais samaritana. Jesus, sabedor de seus dramas conjugais, releva as provocações e avisa, a água que tenho para te dar vai abrandar a sua sede para sempre e não só por alguns instantes. 

Nesse caso, de extrema tolerância, Jesus não só devolve a paz à mulher, como volta a atuar contra os preconceitos, sejam religiosos, de raça ou de gênero.

Referência: 69.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 28/09/2019 - (DV-69)

Tempo quente (DV-68)

Quem não tem assunto fala sobre o tempo? Principalmente em um elevador - “como está quente hoje, não é?”. Mas não é assim, damos muita importância às informações sobre a temperatura e sua influência sobre o nosso corpo.
As estações não funcionam com muita regularidade no Brasil, como explicar um inverno com 40 graus? Aff, pelo menos em Ribeirão Preto agosto e setembro costuma ser seco e muito, muito calor.
Já tivemos umas passagens engraçadas com a natureza.
Quando mudamos para Rio Grande, importante porto do Rio Grande do Sul, um desfile comemorou a chegada do verão, compreensível, o frio lá é rigoroso, prática comum em lugares muito frios, assim como há festivais de invernos também. 
Realmente o tempo esquentou, primeira folga pegamos as crianças e #praiadoCacino, tinha uma só senhora em 14 km de praia, de blusa, pescando seu sustento, e a água muito gelada!
Depois foi na Escandinávia, a temperatura lá estaria entre 14 e 16 graus, como nos dias mais frios aqui da região, é, mas esqueci da sensação térmica próxima de zero, quase viramos pinguim. Duro foi ouvir, “é, o frio daqui é quase igual o de Ribeirão”. Dizem que lá só têm duas temperaturas, frio e muito frio.
Para viajar adotamos uma técnica, chega de Natal Branco - viagens em fins de ano para lugares muito frios. Quer curtir neve? Patagônia em julho - Chile e seus lagos, e Argentina, com Bariloche,  Ushuaia e El Calafate, Europa é boa na primavera e no outono, verão é muito quente, inverno é frio demais.
Li em um trabalho de professores da USP que chamam de “histeria" e de “previsão apocalíptica” a fusão das calotas de gelo polar, inundação das cidades costeiras e desertificação de zonas produtoras de alimentos, e que isso não ajuda a entender os fatores climáticos reais. 
Também já lemos que fogo natural não afeta as matas, pois elas reciclam, da mesma forma que os produtores aprenderam a conviver com a neve, preparam a terra e até plantam antes, quando degela já têm o solo úmido, meio caminho andado para a produção.

Ficamos longe de polêmicas, mas com o respeito pela natureza, seus ciclos e habitats, enfim é a maior manifestação que temos de Deus sobre nós.

Referência: 68.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 21/9/2019 - (DV-68)

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Ary Balieiro e o Imperador (DV-67)

Quando chegamos à uma certa idade temos a impressão que se aceleram as luzes que vão se apagando em um lugar e acendendo em outro, estamos sempre louvando as pessoas que nos deixam. Recentemente já fizemos isso pelo dr. Lancha e agora o fazemos pelo dr. Ary Pedro Balieiro.
Dr. Lancha, além da sua grande humanidade, era muito atencioso, estivemos com ele em seus passeios em Ribeirão e numa icônica festa francana, além do efusivo abraço sempre queria saber de tudo um pouco, ótimo amigo.
Havia muito tempo que não me encontrava com o dr. Ary, mesmo quando exerceu a função de prefeito eu já tinha tomado posse como auditor-fiscal longe de Franca, está no rol dos cidadãos francanos que serão inesquecíveis.
Ontem, ao postar uma lembrança dele no meu Facebook escrevi - que bom quando um cidadão é lembrado por suas qualidades, mas também por suas obras, muitas foram destacadas.
Saboreando os álbuns de recortes de meu pai, Leonel Nalini, com anotações de 1930 até 1980, vemos que dr. Ary está em todos os registros da histórica construção do primeiro edifício da cidade, o Franca do Imperador, na praça Barão. Está certo que custou a demolição de um não menos histórico ‘Sobrado Verde’, e olha que teve até solenidade na AEC para esse anúncio, transmitido pela PRB-5, Rádio Clube Hertz, tudo era.
A cronologia da construção da obra assinada por Balieiro foi a seguinte, após diversos trâmites há o anúncio da aquisição e futura demolição do sobrado em 3 de setembro 1955, a obra demorou pouco mais de 2 anos, foi lançada em coquetel no próprio local em 21 de agosto de 1957 e entregue em 1958.
Como é de praxe fomos buscar nas religiões a referência às obras realizadas, invariavelmente falam no julgamento de Deus pelas atitudes do homens, segundo suas obras.  Isso revela que que temos temos duas metas para nossa evolução, o progresso moral, que nos leva ao progresso espiritual, e o progresso material, que é conseguido pela iniciativas e atividades de todos.

E é aqui que o  dr. Ary Pedro Balieiro e o dr. Lancha se encaixam, além de elogiados por serem ótimas pessoas, ajudaram a impulsionar o progresso de nossa cidade.

Referência: 67.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 14/9/2019 - (DV-67)

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Chiachiri, mais que a denominação do museu (DV-66)

Minha mãe sempre foi muito rotineira, tudo muito sabido, hora de acordar, hora de estudar, hora de brincar, se juntasse ela e dona Antonieta Barini, avestruz! Essa última todas as segundas e quartas-feiras, 7h05 entrava na sala de aula do IEETC e dictée, ditado na aula de francês, um martírio, rsss.
Também fiquei muito rotineiro, todo domingo, bem cedo, participava da Campanha Auta de Souza, que buscava doações de alimentos em saquinhos de papel e, em seguida, do programa de rádio Sementeira Cristã, com a Yara de Carvalho e a dona Marta. Ai vinha, num período a Pré-Mocidade, de novo com a dona Antonieta Barini e, por fim, um pouco mais velho, a Mocidade Espírita com Olavo Rodrigues, dr. Agnelo Morato, Felipe Salomão, dr. Tomaz Novelino, entre tantos.
Nessa época participamos no Teatro da MEF da peça Está Lá Fora o Inspetor, dirigida pelo Eurípedes de Carvalho, com a sua esposa Rosângela (daí saiu o casamento), Zara Carloni, Ademir Pinheiro, Sidney Barbosa e José Lucas Borges.
Na PRB-5, Rádio Club Hertz, íamos às vezes assistir o programa de auditório a Hora do Guri do saudoso amigo Carlos Grego.
E o Chiachiri? Depois dessa excelente e cronometrada rotina, antes de ir desfrutar do domingueiro macarrão feito em casa, passávamos pelo Museu da Franca, que hoje leva o nome do seu idealizador José Chiachiri, amigo que meu pai prezava tanto, fez uma crônica quando ele deixou a cidade em 1973, “O poeta foi passear”. 
Nunca me esqueci disso, um pouco pela gentileza, mas muito pela tristeza de se deixar a terra natal pela qual você lutou, literalmente em 1932, e vibrou tanto. Franca é naturalmente uma terra muito saudosista e os Chiachiri tem méritos nisso, muitos.
Mas eu acabaria mesmo me tornando um grande amigo de José Chiachiri, o filho, quando ele foi vice-prefeito e eu assessor de imprensa do Maurício Sandoval Ribeiro. Não víamos a hora de chegar os fins de tarde na Prefeitura para nos reunirmos em seu gabinete, era o momento da história, da saudade e de muito humor.

Chiachiri Filho sempre tinha algo novo para contar, até as mesmas piadas eram muito saborosas, um ser humano de primeira qualidade, conseguia reunir inteligência e bom humor, que boa época.

Referência: 66.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 7/9/2019 - (DV-66)

Boca calada... (DV-65)

Perguntamos para um endocrinologista se a expressão “peixe morre pela boca” serve para nós, já que exames de colesterol e diabetes tiveram melhoras significativas com alimentação balanceada,  ele só deu um leve sorriso, é muito sério. É claro que os exercícios são fundamentais nesse processo, desacumulam o que a boca ajuda a acumular.
Lembrei-me da frase popular 'boca fechada não entra mosquito’ e de uma expressão atribuída a Jesus: "Não é o que entra na boca que macula o homem; o que sai da boca do homem é que o macula. – O que sai da boca procede do coração e é o que torna impuro o homem”, Mateus (15:18-19).
De novo a analogia, quando há sentimento no que falamos não sai da consciência e sim do coração. 
A voz dá o tom, alto ou baixo, pode ser exercida de forma calma ou apressada, pode embutir muita coisa, principalmente o rebate - “tem certeza?”, quando estamos diante de boatos e maledicências.
O diálogo produtivo é uma das formas difundidas da caridade e do combate à depressão, um bom exemplo são as pessoas sós que não veem a hora de ter alguém para conversar. No caso da família, quando um chega cansado e já conversou até dar nó na língua e o outro passou o dia sozinho, é a hora do respeito mútuo? Um respeita o cansaço, o outro os efeitos da solidão.
E as mulheres falam mais que os homens? Cientificamente isso já foi para o vinagre, tema de capa do livro O Cérebro Feminino (2006) do neuropsiquiatra Louann Brizendine, que depois se arrependeu, e também de um folheto de aconselhamento matrimonial de 1993. Aff.
Drauzio Varella contesta o mito que, apesar da fama, nunca foi comprovado cientificamente, mas o médico faz uma observação importante, a origem da fala no sexo feminino está nos dois hemisférios do cérebro, o do homem só do lado esquerdo, seria por isso que as meninas podem começar a falar primeiro que os meninos e no derrame as mulheres recuperarem a voz mais rapidamente. O falar muito não tem prova! Rss.

Para encerrar uma reflexão - Tem coisas que o coração só fala para quem sabe escutar! (Chico/Emmanuel).

Referência: 65.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 31/8/2019 - (DV-65)


domingo, 25 de agosto de 2019

A genética e os filhos (DV-64)

É normal quando encontramos algo de positivo nos filhos dizer - ele me puxou, e também, quando estamos diante de algum mau humor, gênio forte ou má resposta, afirmar - nossa ele é igualzinho a você. Tirando o chiste é um belo alfinete para as discussões dos casais, principalmente quando estamos diante do - onde eu errei?
Mas enfim, onde realmente um filho ‘puxa' um lado ou o outro? 
Oficialmente é uma loteria, dizem os especialistas, as gerações transmitem 200 genes de uma para outra, o olho azul da mãe, ou o castanho do pai, vai do gene que ‘ganhar’ essa disputa. 
A chance de ser igual ao do pai e da mãe será se os dois tiverem a mesma cor de olho, ainda assim pode herdar o castanho do avô e deixar os papais a ver navios, o azul combina com a cor do oceano, não é?
Os genes que não prevalecem são chamados de recessivos e a criança, ser único, pode ter no seu nascimento uma combinação que deixa os traços familiares mais próximos de lado, seria algo como - não se parece comigo, mas o gênio… igualzinho.
Os geneticistas pesquisam muito as doenças que são herdadas, tanto que, em alguns casos, tomam especial cuidado nos precedentes, caso de glaucoma, próstata e mama.
Um caso que chamou muito a atenção foi o da atriz Angelina Jolie ao retirar as mamas e o ovário com medo de câncer, um caso compreensível, mas chocante.
Mas e na personalidade, o quanto a combinação dos genes influencia para que um filho seja ‘igual' ao pai ou à mãe? Ou a ambos?
É uma combinação sem fim, os cientistas entendem que os fatores externos da criação podem influenciar profundamente no comportamento, surgindo uma outra lenda - Ah, se fosse criado com o rigor que fui seria uma outra pessoa.
Ambiente, exemplos e cuidados com a criação são sim fundamentais na formação do caráter, mas uma coisa não podemos ter dúvida, todas as religiões tratam a alma como única, sendo cada ser responsável pelos seus atos. O espiritismo vai mais além, respeita a genética como também sendo algo de Deus, mas entende que a alma, tendo vida infinita, cursa uma grande universidade, sendo cada encarnação um período dessa formação.


Referência: 64.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 24/8/2019 - (DV-64)

domingo, 18 de agosto de 2019

O sonho impossível (DV-63)

Viver no mundo imaginário é uma fuga? Claro que sim, deveria estar aqui escrevendo sobre assuntos que concentram mais opiniões, como o futebol, o tempo, a economia e a política, por exemplo. Nesta última teria uma pergunta - o que está acontecendo com nossas instituições? Como o assunto hoje é sonho, não precisa responder, rsss.
Gostamos de sonhar… quanto mais sonhos temos, mais a mente voa livre, creio que uma das piores situações para o ser humano é quando ele fica inibido de sonhar, que triste! Ter esperanças e bem usufruir do livre arbítrio para que os sonhos virem realidade é algo muito divino, dá razão para estar vivo.
O documentário O Segredo (2006), trata disso falando sobre uma lei de atração, que seria capaz de fazer qualquer coisa, bastando desejá-la de modo incondicional de modo a direcionar os pensamentos positivos e nunca desistir - a dita "Fé Inabalável”, como informa a sua sinopse. Não é só isso, com certeza, e o merecer?
Como uma coisa leva à outra, lembrei-me do filme - O Homem de La Mancha (Arthur Hiller - 1972) que trata de um sonho impossível, o incrível personagem Don Quixote, vivido pelo extraordinário Peter O’Toole, original literário de Miguel de Cervantes (1615). Obra que coleciona coisas como ser a segunda mais lida até hoje.
Meu pai adorava Don Quixote, talvez como todos, por ser um personagem visionário, ter um amor imaginário - sua Dulcineia, e a inusitada ilusão de que moinhos de vento eram grandes monstros e ovelhas enormes exércitos, o romance nos alerta para que não sejamos traídos pelos falsos pensamentos, ou pelos sonhos impossíveis. Será, e o Segredo?
Muitos cantores interpretaram a música do espetáculo da Broadway que o filme se inspirou, há destaque para Jack Jones, mas se tornou popular mesmo na voz de Elvis Presley, que não fez o meu gênero, rss. 
No Brasil explodiu com a versão de Chico Buarque e Ruy Guerra, interpretada por Maria Betânia: Sonhar mais um sonho impossível, lutar quando é fácil ceder, vencer o inimigo invencível, negar quando a regra é vender, voar num limite improvável, não me importa saber se é terrível demais, quantas guerras terei que vencer, por um pouco de paz.

A cara de Dom Quixote.

Referência: 63.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 17/8/2019 - (DV-63)

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A benção Vinícius de Moraes (DV-62)

Para quem nasceu em berço religioso, digo de orientação cristã, é muito difícil entender como não se acredita em Deus, mas conheço pessoas que são ateus ou agnósticos e são ótimos amigos. A diferença entre um e outro é sutil mas vale afirmar que o ateu não acredita que exista deuses, ou o próprio Deus, e o agnóstico está na esfera do - se existe prove, eu tenho minhas dúvidas. Rsss.
Lembrei disso porque Vinícius de Moraes, em seu celebrado Samba da Benção deu uma de agnóstico e veio com essa: Feito essa gente que anda por aí brincando com a vida. Cuidado, companheiro! A vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom ninguém vai me dizer que tem, sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu. E assinado embaixo: Deus. E com firma reconhecida! 
Acho que estamos diante de uma licença poética, e creio que o Vinícius tinha graduação suficiente para fazer isso, um doutorado! É, ele se auto denomina de capitão do mato da linha direta de Xangô, daí bateu uma curiosidade, uai, a Umbanda não é reencarnacionista? Toda a condução da religião está ligada ao contato com espíritos, que certamente já viveram na Terra, ou seja, é sim. 
Existe também algumas diferenças entre a Umbanda e o Candomblé, a primeira veio com os escravos da África e foi adaptada no Brasil, o Candomblé não, tem a marca registrada brasileira, nasceu no começo do século 20. 
Mas voltemos ao Samba da Benção, um hino, apesar de estar longe do atual empoderamento feminino, traçando o perfil da mulher como submissa no amor, fala que a mulher tem que ter algo mais que a beleza, mas tem que se respeitar a época, época que também a Amélia que era mulher de verdade. 
Dizendo que o bom samba é uma forma de oração ele evoca muito a esperança e a tristeza, e decreta “fazer samba não é contar piada, um bom samba é uma forma de oração”. Fácil de entender um samba tem que ter emoção, poesia, disso ele entendia e muito.
Enfim, ponha um pouco de amor numa cadência e vai ver que ninguém vence a beleza que tem um samba não!

Saravá Vininha.

Referência: 62.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 10/8/2019 - (DV-62)

A gosto de Deus (DV-61)

        É da cultura popular o crédulo da fatalidade, vinculado à sorte e ao azar. Boa parte das coisas aleatórias que ocorrem conosco ficamos sem saber o porquê, se não é nada representativo deixamos para lá. Em compensação costuramos muito do nosso futuro, um bom exemplo é a saúde com a obesidade, perguntei brincando para um médico, “doutor, somos como peixes, morremos pela boca?”. Ele sorriu e, sem dar o caráter de oficialidade, disse: Em parte sim. Ele é endocrinologista, vigia diabetes e colesterol alto, basta?
        De outro lado já falamos aqui da tensão nervosa provocada por nós mesmos, sem interferência externa, como o mau humor, raivas, neurastenias, nossa máquina foi feita para viver em paz, olhando para o futuro, essas reações certamente prejudicam o seu funcionamento, daí não dá para colocar a culpa no azar.
        Também já vimos que o “não cai uma só folha de uma árvore sem a vontade de Deus”, apesar da enorme lógica é um dito popular, não está na bíblia, nem se tem conhecimento do autor. 
        Se analisarmos o livre arbítrio, esse sim é um atributo divino que nos é oferecido, é certo que muitas folhas que caem de nossa árvore foi por falta de cuidado e não imposto por Deus. Certamente faltou adubar melhor os bons pensamentos, regar com ciência nossos objetivos positivos e dar luz do Sol para o nosso crescimento espiritual. O contrário fica por conta dos agrotóxicos sem controle.
        O árabe dá muito valor à expressão maktub, ou, “já estava escrito”, apesar de ser uma expressão fatalista, pode ser vinculada ao espiritismo, que acredita que alguns fatos de nossa existência já estavam traçados antes mesmo de encarnarmos, muitas vezes por nós mesmos escolhidos para resgates e aprimoramento do espírito ao longo de sua imortalidade. 
        Opa, daí digo nas minhas palestras, se estamos sempre em estado de resgate, que tal interrompermos essa rotina mudando nosso comportamento? O cristianismo, nesse caso, é a maior cartilha. Mesmo critério vale para a nossa árvore da vida lá em cima, se cuidarmos melhor, teremos melhores frutos.
        Sim, estamos em um trajeto divinamente traçado, mas ele pode ficar melhor ou pior dependendo de nós.

        Nada a ver com sorte ou azar ou mesmo com o pobre mês de agosto.

Referência: 61.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 27/7/2019 - (DV-61)

As vozes de Jona D'Arc (DV-60)

Vira e mexe volta o assunto sobre bruxas. Nas obras de ficção, regra geral, sempre são mulheres fora de seu tempo ou com informações extraordinárias que não interessam em nada o status quo da época. É óbvio que estamos abordando uma época medieval, ficando fácil analisar 600, 700 anos depois. Nesses casos tem que se respeitar o espírito, a cultura e a evolução da época. Duelo com morte, por exemplo, já foi permitido e admitido como algo legal.
Mas estamos falando de fogueira e, entre tantos casos que terminaram nela, temos o do sacerdote tcheco Jon Huss (1415) que, mesmo não sendo considerado bruxo, queria uma igreja mais moderna e não admitia que se arrecadasse dinheiro em nome da religião, ele acabou inspirando o Protestantismo.
Já Joana D’Arc devia ser um símbolo do empoderamento feminino, ela, aos 19 anos, se adapta visualmente aos soldados da época, cortando curto os cabelos e vestindo a mesma farda deles, comanda com sucesso as tropas francesas contra as inglesas na Guerra dos 100 anos (1337-1453), causa inveja a comandantes, capturada e julgada termina a vida na fogueira (1431).
A captura dela foi por franceses que apoiavam os ingleses, mas também tem um pouco de - o que está fazendo em uma guerra de homens (?) uma moça de 19 anos e que ainda ouve vozes, não só ouve, como também vê quem as fala? Passou a ser um grande perigo, principalmente por ter conseguido comandar homens e vencer batalhas. Daí para a heresia foi um passo ao lado.
Joana D’Arc começou a ouvir vozes com 13 anos, ela dizia que  vinham da igreja dentro de clarões, não as entendendo muito no começo, mas depois declara que seriam do arcanjo São Miguel, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida de Antioquia. 
É… as vozes tentavam fazer uma intervenção em uma guerra sem fim, sugerem que ela não se afaste da igreja e que se apresente para comandar soldados e libertar de um cerco a cidade de Orleans. O que acaba acontecendo.

Esta história de ouvir vozes e mensagens de um plano diferente do nosso não é uma exclusividade de Joana D’Arc, mas hoje a história foi dela. Magnífica e predestinada, tem sim que ser um símbolo.

Referência: 60.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 27/7/2019 - (DV-60)

sábado, 3 de agosto de 2019

A dura vida de um ET (DV-59)

Uma coisa que chama muito a atenção na evolução da raça humana é o seu belicismo, ou seja, todas as grandes transformações políticas do mundo foi banhada de - muito - sangue. Vai ficar de fora nessa análise a influência do bem e do mal no sentido bíblico-religioso.
Fui pesquisar as guerras que causaram mais vítimas, desisti, são tantos milhões que até assusta, deixa para lá. Mas vi que os grandes conflitos registrados datam de 10.000 a.C para cá, não morriam milhões porque não havia tantos habitantes mas há uma equivalência.
Fica a pergunta no ar, se fomos criados por um Deus tão bondoso, porque nos tornamos tão violentos? Sinto que isso está diminuindo um pouco no coletivo, as grandes potências pararam de resolver todos os conflitos políticos na bala. Tomara, será?
Nessa linha de pensamento fiz um retrospecto de quantas guerras já fizemos com outras raças, de outros mundos, pois é, oficialmente ainda não conhecemos nenhum extraterrestre e já travamos guerras incríveis, aliás, a melhor franquia nessa área, é a Star Wars, que já tem a guerra no nome, Guerra nas Estrelas. Quando realmente entrarmos em “guerra" com outros mundos nem será novidade, a ficção já explorou quase tudo.
Daí parei para pensar, regra geral somos todos filhos de Deus, se o Universo foi criado por Ele, todas as criaturas que porventura o habitam também o são. Então, se uma outra raça conseguir chegar até nós, certamente é mais evoluída, navegar esses zilhões de quilômetros para vir guerrear?
Nas ficções tivemos muitos invasores maus, mas também tivemos alguns simpáticos, outros bem intencionados e também os descuidados.
O ET que o diga, falo do filme de ET.: O Extraterrestre, produzido e dirigido pelo espetacular Steven Spielberg (1982), foi a maior bilheteria do cinema por anos, tomou o título sabe de quem? Star Wars, perdendo-o para outra produção dele, Jurassic Park, em 1993.
Tá certo, mesmo não sendo bélicos a turminha do ET veio xeretar nossa botânica, e foi dura a experiência para ele ao ser esquecido, tirando a amizade que fez com o menino Elliott e com aquela carinha de sapo as autoridades queriam mesmo era dissecá-lo. 

Enfim é isso, não conhecemos ainda nossos vizinhos, mas a guerra já está declarada.


Referência: 59.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 20/7/2019 - (DV-59)

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Autismo não é doença! (DV-58)

Sempre fui muito curioso com a capacidade de alguns autistas de potencializarem algumas qualidades cognitivas, como em registros de memórias, cálculos e a música, por exemplo, mas ficar só nisso é subestimar a luta de algumas famílias com os problemas comportamentais severos em alguns casos. 
O nome correto é Transtorno do Espectro Autista (TEA) e as habilidade extraordinárias que aponto também tem explicação, em parte, é a Síndrome de Savant, que ocorre em 10% nos casos leves.
Um dos personagens ficcionais mais famosos do savantismo foi de King Peek, no filme Rain Man (1988), interpretado magistralmente por Dustin Hoffman, ele tinha suas incapacidades, mas era capaz de decorar livros inteiros, listas telefônicas, entre outras enormes façanhas. 
Por outro lado, basta encontrar um blog sobre o TEA e vai verificar nos depoimentos das mães que não é fácil encontrar médicos que dominam o assunto, elogiam muito as entidades que as apoiam, mas a realidade é a mesma de outros problemas semelhantes, para ter um tratamento diferenciado dependem da rede particular e isso custa, muito, o mesmo vale no ensino, poucas escolas, poucos professores.
Um grande desserviço foi feito por um jornalista ao apontar que Messi teria TEA, combinado com uma outra síndrome, a de Asperger, que também ocorre em casos leves de autismo. Tanto o médico particular, como a família do jogador desmentiram veementemente.
Gosto muito de um vídeo, que reproduz parte de um best-seller do cientista Norman Doidge, por algo que não é novo, mas precisa ser mais estudado e mais estimulado, a neuroplasticidade do cérebro. Algo como fazer exercícios e estímulos para que sejam ativados neurônios “sãos" pra que venham em socorro das partes lesionadas. Isso é excelente e fundamental para pessoas acometidas com derrame, lesão por acidente, má formação, paralisia cerebral e… autismo. O vídeo chama-se Reconstrução do Cérebro, tem histórias de sucessos nesses tratamentos inimagináveis. 
Está nesse vídeo Pascual-Leone, que dedica boa parte de seu estudo para o autismo, um caso dele de sucesso que ganhou o mundo foi o de John Elder Robison (Asperger) que, com estímulos no cérebro, aos 40 anos, começou a entender porque as pessoas sorriam ou choravam. Ele diz em vídeo, “eu comecei a ver as pessoas por dentro”.


Referência: 58.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 6/7/2019 - (DV-58)

O nosso Russo (DV-57)

Renato Russo viveu 36 anos, fundou o Legião Urbana, foi um dos melhores letristas do rock brasileiro. Nada a comparar com Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e João Bosco, geração anterior à dele mas que também não escreviam para o rock, e nem com o clássico Tom Jobim, que permitam admitir fora de concurso. 
Chico Buarque venceu uma pesquisa informal entre as cantoras brasileiras, ele foi escolhido como o compositor que melhor entendeu a alma feminina. As entrevistadas disseram que cantavam suas músicas como elas as tivessem escrito.
Dos quatro o Gil é o que tem o maior swing, compôs músicas dançantes sem nunca perder o brilho e a qualidade das letras. Entre esses, eu diria que o mais complexo é João Bosco, faz um jogo de palavras com uma rapidez que, quando vamos ouvir a sua música, fica quase impossível de se acompanhar. Caetano mistura tudo isso, hehehe, é brilhante também.
Mas e o nosso Russo? Sua obra reflete um pouco de seu perfil solitário, aquele que, mesmo estando perto de muita gente, parece que está sozinho.
Na sua música mais ouvida a Mais Uma Vez, ele chega reclamar: "Tem gente que está do mesmo lado que você. Mas deveria estar do lado de lá”, aumenta o tom dizendo que são pessoas que não sabem amar, vivem nos enganando, gente que machuca os outros, e completa - "Se você quiser alguém em quem confiar. Confie em si mesmo”.
O desistir das pessoas em volta não é só um gosto pela solidão, mas também uma chamada de atenção para a depressão. É bom considerarmos que não estou fazendo análise psicológica, imagina, nem sempre a obra literária, principalmente em letras de música, apontam para o que autor pensa. Quem faz uma trilha sonora, ou musical que envolvam peças com letras, escrevem para o tema que está à sua frente, não para o que ele pensa.
Mas, no caso do nosso Russo, quem assistiu ao filme póstumo, ou acompanhou sua carreira, sabe de seu lado solitário quase depressivo, estado que, creio, todos temos que vigiar, o de que é melhor estar sozinho, fomos criados para viver coletivamente, mesmo com suas dificuldades.

De qualquer forma, fiquemos com sua obra, intensa e contestadora, foi um grande músico. 

Referência: 57.a coluna publicada no Verdade, jornal de Franca - SP - em 29/6/2019 - (DV-57)